Vieses políticos

Feminismo, ecologismo, fundamentalismo religioso e multiculturalismo: alguma dessas ideologias merece mais atenção do Estado? Elas influenciam seu posicionamento político?

Por Maria Thereza Alencastro Veiga em 28 de Agosto de 2014


"Viés é uma tendência a ter ou apresentar uma perspectiva parcial em detrimento de outras alternativas (possivelmente igualmente válidas). Vieses podem existir de várias formas." "Viés é um substantivo masculino com origem no termo em francês biais, que significa oblíquo, esguelha, soslaio, ou classifica algo que tem direção oblíqua. Em sentido figurado, viés representa um tendência ou propensão desvirtuada ou preconceituosa de observar ou de agir."

Vocês já pensaram que as ideologias clássicas, as posições político-filosóficas tradicionais podem ser atravessadas pelo viés de um interesse maior da pessoa, da comunidade? Neste sentido, o feminismo, o fundamentalismo religioso, o ecologismo e o multiculturalismo podem ser informantes de importância extraordinária na configuração de uma determinada sociedade e na política adotada pelo Governo.

Feminismo é um movimento social, filosófico e mais recentemente político, que tem como meta o reconhecimento da existência dos mesmos direitos entre os gêneros, por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões opressores baseados no sexo. O feminismo advoga a igualdade entre os gêneros, incluindo-se homens e mulheres, além de envolver a campanha pelos direitos das mulheres e seus interesses.

Nesta altura, é preciso compreender do que está se falando, quando se usa a palavra gênero.

Gênero é um conceito construído socialmente na busca da compreensão das relações estabelecidas entre os homens e as mulheres, os papéis que cada um assume na sociedade e as relações de poder estabelecidas entre eles. Mas refere-se, também, à identidade adotada ou atribuída a uma pessoa de acordo com seu papel na sociedade. Gênero, então, é a identidade sexual subjetiva de cada um. Embora para a maioria das pessoas existam apenas dois gêneros, homem ou mulher, esta, no entanto, não é a realidade: historicamente, o feminismo posicionou os papéis de gênero como aqueles que são construídos socialmente, independente de qualquer base biológica. De se lembrar, ainda, que há pessoas cuja identidade de gênero difere do gênero designado de acordo com os genitais. A palavra gênero é, portanto, usada para determinar tudo que é social, cultural e historicamente definido e não como sinônimo de sexo.

Classicamente, divide-se a história do feminismo em três ondas. A primeira aconteceu entre o século XIX e o início do século XX, a segunda nas décadas de 1960 e 1970 e a terceira na década de 1990 durando até a atualidade. A teoria feminista surgiu destes movimentos e, além de promover a igualdade de direitos, tem papel importantíssimo na história das crianças, pois é somente a partir do começo da libertação da mulher da opressão masculina, que começaram a ser denunciados, por exemplo, os abusos sexuais, muitas vezes perpetrados pelos próprios pais.

A “primeira onda” do feminismo tinha como foco original tanto a promoção da igualdade nos direitos contratuais e de propriedade, como também a oposição a casamentos arranjados. A partir do final do século XIX, no entanto, o ativismo focou principalmente a conquista de poder político e especialmente o direito ao voto por parte das mulheres. A “segunda onda”, que durou do começo da década 1960 até a década de 1980 e recebeu o slogan “O pessoal é político”, passou a identificar a desigualdade como resultado da união de problemas culturais e políticos, encorajando, assim, as mulheres a se politizarem e combaterem as estruturas sexistas de poder.

Foi especificamente em 1964 que surgiu a frase “Liberação das Mulheres”, quando então se começou a criticar a ideia de que as mulheres teriam satisfação em apenas cuidar dos filhos e do lar. Esta nova postura incendiou o cenário social, pois as mulheres passaram a a defender o direito de trabalhar e se sustentar, com base na igualdade de capacidade. A “terceira onda”, iniciada no começo dos anos 90, essencialmente traz debates internos: é a crítica ao chamado feminismo da diferença, e defende que há importantes contrastes entre os sexos, em oposição a outras vertentes que creem não haver diferenças inerentes entre homens e mulheres, defendendo que os papéis atribuídos a cada gênero é que instauram socialmente a desigualdade.

O ecologismo é uma ideologia política que, ao tirar o olhar do antropocentrismo (o homem no centro de tudo), passa a afirmar a importância do foco ecocêntrico (a natureza, nela incluída o homem, no centro de tudo) para pensar as políticas públicas, que surge a partir do questionamento sobre o esgotamento dos recursos naturais e o futuro da vida no planeta. Os ecologistas são conhecidos também como "verdes".

O diálogo entre a ecologia e a política não é recente, mas também está muito longe do seu esgotamento. Com efeito, há quem afirme que os princípios do ecologismo contemporâneo devem muito às religiões pagãs, que enfatizavam a Mãe Terra, sem distingui-la de outros seres vivos, bem como às religiões orientais, como o hinduísmo, o budismo e o taoismo, que estimulam a compaixão pelos seres humanos por outras espécies e pelo mundo natural. As religiões monoteistas tais como o cristianismo, o judaísmo e o islamismo também informam o ecologismo, na medida em que consideram que tanto a humanidade quanto a natureza são produtos da criação divina, merecendo, então, os mesmos cuidados. Ainda assim, no entanto, o primeiro partido ecologista do mundo surgiu na Nova Zelândia em 1976, mas foi somente na década de 1980, principalmente com os Verdes da Alemanha Ocidental, que o movimento ganhou força e notoriedade.

Incorporando temas recorrentes nos movimentos sociais emergentes, como o ambientalismo, o feminismo, o pacifismo e a luta pela identidade racial, a prática política ligada à ecologia passou a ocupar importantes espaços de poder em todo o mundo, o que acirrou a divisão entre os chamados "realistas", que em geral, defendem o relaxamento de posições em troca de resultados eleitorais imediatos e os "fundamentalistas", mais apegados aos temas clássicos do ecologismo. Esta tensão entre a necessidade dos resultados eleitorais e a manutenção das bandeiras ditas "ruins de voto" pautou grande parte das discussões internas dos partidos verdes na década de 1990, mas, de qualquer forma, o ecologismo termina por se configurar como um viés de extrema importância política nos dias de hoje.

A religião, como se sabe, permeia o ambiente humano desde os primórdios dos tempos. Com o advento do Estado, no entanto, além de influenciar a vida privada, esta passou a ter também a possibilidade de atuar nas decisões das nações. Essa influência teve amplitudes diferentes, dependendo da época, podendo a religião se confundir com o próprio Estado ou sobrepor-se ao poder civil como aconteceu durante a Idade Média. Hoje, vê-se uma nova era de interferência religiosa no mundo e o fundamentalismo ganha força, já que movimenta tanto a política interna, quanto a externa.

A expressão Fundamentalismo Religioso surgiu no começo do século XX nos Estados Unidos, para designar a determinação dos protestantes a respeito da crença em tudo o que a Bíblia diz, já que o termo significa exatamente isto, ou seja, a crença na literalidade das palavras de um livro considerado sagrado. Apenas em 1979, no entanto, quando a Revolução Islâmica transformou o Irã em um Estado teocrático e obrigou o País a um retrocesso aos olhos do Ocidente, foi que o conceito não só se espalhou pelo mundo, como também o preocupou: os ataques de 11 de setembro, organizados pelo grupo Al Qaeda, acendeu a preocupação contra fundamentalistas e criou o mito de que todos eles são muçulmanos e terroristas, o que, por óbvio, é uma inverdade: no judaísmo, por exemplo, os fundamentalistas são os judeus Haredi que se julgam os "verdadeiros judeus da Torah" e que se alimentam, se vestem e vivem estritamente no modo religioso. Há ainda muitos grupos que podem ser chamados fundamentalistas, entre eles, os Amish, que são descendentes dos grupos suíços de anabatistas, cuja maioria vive nos Estados Unidos, especificamente na Pensilvânia.

Por seu turno, Islão, ou Islã, é uma religião abraâmica monoteísta que tem como livro sagrado o Alcorão, um texto considerado pelos seus seguidores como a palavra literal de Deus. Os adeptos do islamismo são chamados de muçulmanos e acreditam que Deus é único, incomparável e que o propósito da existência de qualquer ser humano é adorá-lo. Eles também acreditam que o Islã é a versão completa e universal da fé primordial que foi revelada em muitas épocas e lugares anteriores, inclusive por meio de Abraão, Moisés e Jesus, que eles consideram profetas cujas revelações foram parcialmente alteradas ou corrompidas ao longo do tempo: o Alcorão seria, então, a versão inalterada da revelação final de Deus.

O termo “Estado Islâmico”, por sua vez, que é frequentemente utilizado para descrever o fundamentalismo religioso, refere-se aos Estados que adotaram o Islão e mais especificamente a Sharia ou "Lei de Deus", que é a estrutura legal dentro da qual os aspectos públicos e privados da vida do mulçumano são regulados: a Sharia, além de lidar com diversos aspectos da vida cotidiana, regula a política, a economia, os bancos, os negócios, os contratos, a família, a sexualidade, a higiene e as questões sociais, sendo então de acordo com os seus fundamentos ideológicos que surge a instituição política.

Religião e política, nestes Estados, são a mesma coisa, já que o Islã é guia completo de sistema de vida e também da política: assim como o Islã ensina como cumprir a oração (Salat), como observar o jejum (Saum), como pagar tributos (Zakat) e como empreender a peregrinação (Haj), ele também ensina a dirigir um Estado, formar um governo, escolher conselheiros e membros do parlamento, fazer tratados e conduzir negócios e o comércio. 

No total, 31,5% da população mundial se considera cristã (incluindo católicos romanos, ortodoxos e protestantes), vindo em seguida os muçulmanos (sunitas e xiitas), com 23,2% do total. Os que se declaram ateus, agnósticos ou não-filiados a alguma religião formam 16,3% da população mundial, percentual superior ao de hindus, 15%, budistas, 7,1%, seguidores de religiões étnicas ou folclóricas, 5,9% e judeus, 0,2%.

Multiculturalismo, ou pluralismo cultural, é um termo usado para descrever a pretensão de assimilação dos imigrantes e da sua cultura nos países de acolhimento, incentivando a coexistência de diversas nacionalidades, origens étnicas, religiosas e culturais em uma mesma região. A política multiculturalista confronta-se com o ideal de homogeneidade cultural, cultivada principalmente pelo nacionalismo, já que se insurge contra a criação de particularismos e dependência. Sociedades pluriculturais coexistiram em todas as épocas, e hoje, estima-se que apenas 10 a 15% dos países sejam etnicamente homogêneos. O Canadá e a Austrália são exemplos de países onde o multiculturalismo foi assimilado, respeitado e legislado.

O Canadá multiculturalista começa sua história com os aborígenes que são multiculturais e multilinguais. Nos Séculos XVI e XVII vieram os exploradores tanto franceses quanto ingleses e se integraram ao País. Finalmente, durante as últimas décadas do século XIX e no começo do século XX imigraram para o Candá muitos povos do leste e do norte europeu, assim como chineses e sul-asiáticos: estima-se que, em 2006, 20% da população residente no país havia nascido fora do Canadá, número que chegava a mais de 34% da população se considerados os descendentes de primeira geração, nascidos no Canadá, mas filhos de pais nascidos no exterior.

Em julho de 1988, o Governo do Canadá reconheceu a chamada face mutante do país e baixou o Ato de Multiculturalismo do Canadá, tornando-se o primeiro país do mundo a criar uma legislação que reconhecia, defendia e promovia a diversidade cultural do país. Aliada à forte promoção de políticas públicas em defesa da diversidade cultural, essa iniciativa jurisdicional inibiu legalmente qualquer resquício de conservadorismo e xenofobia.

Embora não haja uma legislação específica para a proteção do multiculturalismo, o Brasil se define, muito, pela a mestiçagem e pela mistura, sendo portanto no melting pot que melhor se traduz o espírito da cultura brasileira.

Seus opositores defendem que o multiculturalismo pode ser danoso às sociedades e particularmente nocivo às culturas nativas.

Então.

Algum ou alguns destes vieses motivam sua escolha política? Dentre estes temas, há algum para o qual você pensa que deve ser dado prioridade, ou no mínimo alguma atenção especial pela política do Estado? Em geral, os partidários destes vieses carregam algum grau de fanatismo: você acha que o progresso e a absorção de qualquer idéia acontece na sociedade através de uma implantação autoritária, ou pelo consenso?


[Fotografia. “O Nyau ou Gule Wankulo é uma dança exótica milenar praticada por homens das comunidades situadas ao norte do rio Zambeze e adquire conotações diferentes de acordo com a ocasião em que é praticada, se em rituais de iniciação masculina, cerimônias fúnebres ou por puro entretenimento. Nyau significa o próprio dançarino, quando já paramentado por suas vestimentas e adornos e Gule Wankulo, 'a grande dança'. Sua origem está associada ao surgimento do Estado Undi em meados do século XVII e essa manifestação popular de elevadíssimo valor cultural corre risco de extinção e é ameaçada pelo progresso do mundo globalizado avançando sobre terras africanas, pela educação formal cada vez mais substituindo a tradicional, o que limita a transmissão do conhecimento da dança entre as gerações, assim como pela constante migração do homem do campo para a cidade e pela entrada cultural do mundo globalizado nas culturas tradicionais. Reconhecida toda a sua relevância como meio de integração social e ajustamento dos comportamentos individuais do sujeito às suas raízes, regras e normas da sua comunidade, bem como por seu valor universal ao preservar propósitos culturais típicos dos grupos étnicos Chewa, Achipetas e Azimbas, foi considerada pela UNESCO, em novembro de 2005 como 'Obra-Prima do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade' e desde então ingressou na lista das 90 obras protegidas pelas nações unidas.”]


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