Por fim

Minha visão do mundo é fundada sobre ideais que digam respeito sobretudo à liberdade: apoio a democracia, os direitos civis, a liberdade de expressão, de imprensa, de religião e o Estado mínimo.

Por Maria Thereza Alencastro Veiga em 25 de Outubro de 2014


Muita gente tem me cobrado posições pessoais. Está bem. Embora ache que sempre tenha deixado meu pensamento político muito claro, vou então fechar este ciclo de artigos sobre as Eleições 2014 falando de tudo na primeira pessoa. "Eu". Vou inclusive relembrar trechos de alguns artigos já escritos por mim.

Começo pelo que detesto.

Detesto o populismo: detesto esta política "que se particulariza por um 'modo' de exercício do poder cuja característica básica é o contato direto entre as massas urbanas e o líder carismático, através do estabelecimento de um vínculo emocional com o 'povo'. Isso implica em um sistema de políticas ou métodos para o aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo, além da classe média urbana, como forma de angariar votos e prestígio através da simpatia daquelas." Não há simpatia ou antipatia por esta ou aquela pessoa na área política: há alinhamento, ou não, com ideias. Há muita gente que não tem carisma e tem ideias sensacionais. E vice-versa. De mais, a mais, não sou "aliciável". Posso ser convencida; aliciada, jamais.

Também detesto a demagogia: "Demagogia é um termo de origem grega que significa 'arte ou poder de conduzir o povo'. É uma forma de atuação política na qual existe um claro interesse em manipular ou agradar a massa popular, incluindo promessas que muito provavelmente não serão realizadas, visando apenas a conquista do poder político, ou outras vantagens correlacionadas. É a estratégia de condução político-ideológica, valendo-se da utilização de argumentos apelativos, emocionais, em vez de argumentos racionais, para proveito próprio. Em geral, a demagogia está relacionada à negativa da deliberação racional, fazendo uso de uma das falhas da democracia, qual seja, a possibilidade de manipulação da maioria, pelo uso de aparentes argumentos de senso comum entremeados com disjunções falaciosas, prática esta que remonta já à Grécia antiga, muito embora sem conotação negativa a princípio." Emoção no lugar da razão, quando se deve discutir ideias, é desastre na certa. É cegueira.

Em resumo, avalio tanto o populismo, quanto a demagogia, como engodo, como desrespeito à minha inteligência e à minha capacidade de compreensão dos fatos.

Detesto, ainda, a esquerda e a direita que se apresentam com esta demarcação estanque. A esquerda, porque tem como finalidade colocar todos no mesmo lugar, como se o esforço de cada um não tivesse que ser levado em consideração e não pudesse ou devesse voltar como benefício particular e merecido. E a direita, porque parte do pressuposto que todos nascem igualados por sua raça, sua cor, quiçá sua nacionalidade e não consideram o fato inegável que cada um de nós é um ser irrepetível.

De fato, quando ouço alguém falando em "mais valia", "elite reacionária" e coisinhas que tais, imediatamente vejo alguém que parou no tempo em que se pensava que isto podia dar certo. A história já mostrou que a esquerda não funciona. E, por outro lado, quando ouço alguém falando em estratificação de classes sociais, características raciais e estas bobagens, imediatamente vejo alguém que parou no tempo em que a ciência era adivinhação. Ou seja, ambos ainda estão usando "pince nez".

Se sou a favor do Estado do Bem Estar Social? Até certo ponto. Até o ponto em que não se ultrapasse a necessidade do esforço próprio. Não gosto da ideia de retirar de cada um o desejo de ir além. Evoluir em todos os sentidos tem que ser uma necessidade. Então não, não gosto do Estado do Bem Estar Social pleno, aquele que pretende igualar as pessoas independentemente do esforço de cada um. As pessoas são diferentes, e sim, as oportunidades devem ser as mesmas, mas onde elas chegam com esta oportunidade é outra coisa.

Sou liberal, em resumo. Minha visão do mundo é fundada sobre ideais que digam respeito sobretudo à liberdade: apoio a democracia, os direitos civis, a liberdade de expressão, de imprensa, de religião e o Estado mínimo. E detesto o Estado babá, aquele que pretende vigiar cada passo, cada pensamento dos cidadãos, até porque é aí que se abrigam os detestáveis, intragáveis "politicamente corretos".

Mas reconheço que vivemos em um País cuja história proporcionou um patamar de desigualdades que precisa sim ser corrigido por políticas de Estado.

Então sou sim a favor da saúde pública de qualidade, paga pelos impostos que todos nós desembolsamos.

Sou sim a favor da educação financiada pelo Estado, mas aí ando por um caminho diferente daquele que está sendo trilhado pelo Brasil. Sou a favor do sistema de voucher (crédito escolar), onde o Estado sai de seu papel de administrador do sistema educacional e passa para o de financiador. Acho que seria sensacional se o Estado, com sua habitual ineficiência, deixasse de administrar a educação, sob a forma de manutenção de escolas públicas, e desse aos pais a liberdade de escolherem a escola em que os filhos irão estudar, fornecendo-lhes vouchers em valor percentual correspondente à necessidade financeira para a manutenção dos filhos na escola escolhida.

Gosto deste caminho, porque além de melhorar imediatamente a educação, ele soma outro valor de fundamental importância para mim: no Brasil formaram-se ilhas. Bairros dos pobres, bairros da elite, shopping center dos pobres, shopping center das elites (lembram-se dos rolézinhos?) e, claro, escolas dos pobres, a pública, de péssima qualidade, e as escolas da elite. É necessário encontrar um espaço de convivência que despreze as diferenças entre ricos, pobres, negros, amarelos, vermelhos, brancos, cristãos, ateus, judeus, muçulmanos, portadores e não portadores de deficiência de qualquer espécie, e que, por consequência, barre o preconceito. E este espaço só pode ser a escola: nas brincadeiras do recreio, não há pretos ou brancos, cristãos ou muçulmanos, ricos ou pobres: há crianças. Esta, para mim seria a verdadeira inclusão e este o caminho da melhora imediata da educação.

É isto, enfim.

Termino, no entanto, com um prognóstico ruim para o País no próximo ano.

Com qualquer um dos dois, a atual Presidente ou Aécio Neves, será difícil. A economia está descontrolada, os investidores estão fugindo, a inflação está soltando fogo pelas ventas.

Mas com o PT, em razão da divisão que o Lula tanto insistiu, que finalmente conseguiu fazer entre os brasileiros, e com o escândalo da Petrobrás, que certamente transbordará, poderemos falar de impeachment, um Presidente do PMDB e mais dez anos de atraso. Não se esqueçam de que a delação só será premiada se o delator tiver provas do que diz e o Youssef, que disse que Lula e Dilma sabiam do esquema e se aproveitavam dele, não quer se transformar em outro Marcos Valério.

Lembrem-se, ainda, de que a Polícia Federal não está gostando do aparelhamento que o PT está promovendo na corporação. Além disso, o afastamento de um Presidente é decidido pelo Congresso Nacional. E o eleito, com vinte e oito partidos, é incontrolável.

Espero que não. Sinceramente, espero que o Brasil evite este caos.


Comentários

Maria Amélia da Silva Costa Bellodi

Como sempre esclarecedora e lúcida!Parabéns!!!Minha Abraços

Paula

Maria Thereza , é maravilhoso ler seus artigos , são claros e informativos . Parabéns pela iniciativa e contribuição a nós, leigos juridicamente falando , porém admiradores da sua coerência e inteligência . Beijo querida .