Justiça Social e Bolivarianismo

Uma coisa é o que é desejável, o que julgamos eticamente correto. Outra coisa é a maneira como vai se alcançar o que julgamos justo. 

Por Maria Thereza Alencastro Veiga em 16 de Agosto de 2014


O conceito de "Justiça Social" surge em meados do século XIX, mediante a preocupação com a desigualdade social e define a política que busca o equilíbrio entre partes desiguais, por meio da criação de proteções (ou desigualdades de sinal contrário), a favor dos mais fracos.

Seus adeptos dizem que, enquanto "a justiça tradicional é cega, a justiça social deve tirar a venda para ver a realidade e compensar as desigualdades que nela se produzem". Dizem ainda que, enquanto a chamada "justiça comutativa [aquela que envolve trocas] é a que se aplica aos iguais, a justiça social corresponderia à justiça distributiva, aplicando-se aos desiguais".

O mais importante filósofo da justiça distributiva em nossos tempos é o liberal John Rawls que, em "Uma Teoria da Justiça" (A Theory of Justice), defende que uma sociedade será justa se respeitar três princípios: "garantia das liberdades fundamentais para todos; igualdade equitativa de oportunidades e manutenção de desigualdades apenas para favorecer os mais desfavorecidos".

"Justiça social é, então, uma construção moral e política baseada na igualdade de direitos e na solidariedade coletiva. Em termos de desenvolvimento, a justiça social é vista como o cruzamento entre o pilar econômico e o pilar social."

O "Bolivarianismo" é uma ideologia que se baseia nas idéias do militar e político Simón Bolívar: Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios Ponte-Andrade y Blanco (1783 — 1830) foi um militar e líder político venezuelano e figura importantíssima nas guerras de independência da América Espanhola.

Ele é considerado, na América Latina, um visionário, revolucionário e libertador. É mais um herói para nossas cartilhas: foi ele quem liderou Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela rumo à independência e ajudou implantar a democracia na maioria dos países da América Hispânica. Em seu uso contemporâneo, o termo bolivarianismo faz referência principalmente ao ideal de justiça social.

Simon Bolívar foi ressuscitado, digamos assim, pelo presidente da Venezuela Hugo Chávez que, quando assumiu a Presidência da República em 1998, autodenominou-se bolivariano: entre suas ações inspiradas na dita ideologia estão a mudança da Constituição da Venezuela de 1961 para a chamada Constituição Bolivariana de 1999, que mudou o nome do Estado para República Bolivariana da Venezuela, e outros atos como a criação e promoção de escolas e universidades com a denominação bolivariana, como o são as Escolas Bolivarianas e a Universidade Bolivariana da Venezuela. Todas estas políticas estão sendo implantadas (ou impostas?) na Venezuela através do que se denominou Revolução Bolivariana.

Vários líderes políticos dizem basear seus próprios projetos nos ideais de Bolívar, tais como Hugo Chávez, agora substituído por Nicolas Maduro, o presidente do Equador, Rafael Correa, e o presidente da Bolívia, Evo Morales. Entre suas idéias estão a promoção da educação pública gratuita e obrigatória, o repúdio à intromissão estrangeira nas nações americanas e à dominação econômica. Propõe, principalmente, a união dos países latino-americanos.

A partir de 2005, começou-se a utilizar, além disso, o conceito de Socialismo do Século XXI e a definir o caráter socialista da Revolução Bolivariana na Venezuela.

Atenção: Justiça Social é uma coisa. Outra muito diferente é o caráter socialista que venha impregnar ou justificar qualquer ideia ou política: não vamos deixar dúvidas: "Socialismo refere-se a qualquer uma das várias teorias de organização econômica, advogando a administração, e a propriedade pública ou coletiva dos meios de produção, e distribuição de bens e de uma sociedade caracterizada pela igualdade de oportunidades/meios para todos os indivíduos, com um método igualitário de compensação. Atualmente, teorias socialistas são partes de posições da esquerda política, relacionadas com as atuações de Estado de bem-estar social."

Não misture as coisas e saiba a respeito do que se está falando. Uma coisa é o que é desejável, o que julgamos eticamente correto. Outra coisa é a maneira como vai se alcançar o que julgamos justo.

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


Comentários

sandro

porque os poderosos temem as revoluções sociais,porque querem o mundo sempre voltados para as suas ideologias,porque se incomodam tanto com a promoção de justiça para todos,já chega do exclusivismo das elites do sudeste e sul.