Educação em pauta

As promessas são praticamente as mesmas em todos os discursos: a maioria dos candidatos diz que vai destinar mais recursos para a área e investir na Escola de Tempo Integral. Será?

Por Alencastro Veiga Advogados em 17 de Setembro de 2014


Há menos de um mês para as eleições, os principais candidatos à Presidência da República focaram seus discursos para a área da Educação. Não se trata de coincidência: este é um tema que afeta diretamente a vida de toda a população, da dona de casa que quer os filhos na escola até o empresário que busca mão de obra qualificada. Mais que isso: é uma forma de emancipação do indivíduo e de construir uma sociedade melhor.

Nas últimas duas décadas, o Governo Federal criou programas sociais importantes de acesso à Educação, como o Bolsa Escola (gestão FHC) e o ProUni (gestão Lula). No entanto, algumas medidas ainda engatinham lentamente, como o caso da Escola de Tempo Integral, prometida em eleições passadas e que agora faz parte do discurso de praticamente todos os postulantes a um cargo público.

Para refletirmos melhor sobre esse assunto, compartilhamos uma entrevista da revista Época, publicada no último dia 12 de setembro, com o senador Cristovam Buarque (PDT), que foi o primeiro ministro da Educação no governo Lula. Leia:


SONETO DA EDUCAÇÃO

Um diagnóstico da nossa educação em uma conversa com o primeiro ministro da área na era Lula

RUTH AQUINO


De repente, não mais que de repente, fez-se de inteligente o ignorante, fez-se de próximo o distante, fez-se da educação uma aventura edificante. De repente, todos os candidatos à Presidência só falam naquilo: educação. O primeiro ministro da Educação da era petista, Cristovam Buarque, pressionou Lula a fazer a revolução que, hoje, todos prometem. Caiu por isso. A seguir, uma conversa com ele, hoje senador. Para quem tem memória curta.

ÉPOCA – Educação virou “prioridade” no horário eleitoral. Por que a súbita obsessão retórica?

Cristovam Buarque – A realidade mostrou que educação é fundamental não só para cada indivíduo, mas para o desenvolvimento científico e tecnológico do país. Sem isso, a economia fica para trás, produzindo bens primários e importando bens de alta tecnologia.

ÉPOCA – O que deu certo e errado nos 12 anos de governo do PT?

Cristovam – Deu certo o lento avanço na universalização, não deu certo o salto necessário para a qualidade. A escola, ampliada, ficou para trás. Três brechas se aprofundam: entre a educação no Brasil e noutros países, entre a educação dos ricos e dos pobres, entre as necessidades de educação e o que a escola oferece. 

ÉPOCA – Por que o senhor saiu do governo?

Cristovam – O presidente Lula cansou de algumas falas minhas. No último encontro, eu lhe disse que não fazíamos o dever de casa para mudar a economia. O desinteresse político de Lula pelo longo prazo o levou a gestos imediatos no ensino superior, sem dar atenção à educação de base. O resultado foi aumento no ensino superior, com qualidade desastrosa. Lula temia minha reação à mudança da Bolsa Escola para Bolsa Família, que perderia a conotação educacional, ao sair do MEC para o Ministério do Desenvolvimento Social. Lula usa espertamente a ideia de que é possível saltar para a universidade, sem passar pela educação de base. E esse discurso, mesmo que demagógico, dá votos, como se comprova.

ÉPOCA – Quais foram suas maiores frustrações como ministro?

Cristovam – Primeiro, a suspensão do programa para a erradicação do analfabetismo, logo depois que saí. Também a paralisação do programa Escola Ideal, embrião da Federalização da Educação de Base. E os projetos que ficaram na gaveta da Casa Civil, entre eles o Programa de Apoio ao Estudante, que depois virou Prouni.

ÉPOCA – Que nota daria ao PT, com base em nossos indicadores educacionais?

Cristovam – É fácil: a mesma nota do Ideb. Menos de 5: reprovado. Se tivéssemos levado adiante a proposta de adotar as escolas de cidades pelo governo federal, hoje já teríamos 3 mil cidades com educação de alta qualidade.

ÉPOCA – O que acha da aprovação automática?

Cristovam – Uma medida errada. É como dar alta ao doente, porque ele ficou um tempo determinado no hospital, sem ao menos tomar a pressão dele. Serve apenas para mostrar diminuição no número de doentes.

ÉPOCA – O que acha das cotas raciais?

Cristovam – Sou a favor, como medida paliativa, necessária para mudar a cor da cara da elite brasileira, enquanto se faz o certo e definitivo: negros e brancos, pobres e ricos em escolas com a mesma qualidade.

ÉPOCA – Algum modelo estrangeiro é inspiração para uma revolução na educação?

Cristovam – Os melhores exemplos de países que partiram de níveis parecidos são Coreia do Sul e Irlanda. Para acabar com a vergonha em todas as escolas de uma cidade, bastam poucos anos. Para fazer a mudança em todas, mais de 20.

ÉPOCA – Que metas devem ser perseguidas?

Cristovam – O governo federal deveria escolher e adotar escolas de cidades e implantar um novo sistema para substituir o atual. As escolas federais, melhoradas, podem ser um padrão a espalhar. Uma revolução na educação de base custaria 6,4% do PIB. Um grande programa para a população adulta, entre 9% e 10%. Espero um presidente que diga: “Só descansarei quando nenhuma família precisar de Bolsa Escola”.

ÉPOCA – O senhor diz que a violência na escola é produto da desvalorização do magistério. Como valorizar o professor?

Cristovam – Criando uma Carreira Nacional dos Professores, com salário capaz de atrair para o magistério os jovens mais brilhantes do ensino superior. Para isso, precisamos pagar R$ 9.500 por mês. Escolher esses professores de maneira rigorosa, exigir dedicação exclusiva e submetê-los a avaliações para substituir quem não tiver o desempenho desejado. Fazer escolas bonitas e confortáveis, equipadas com a mais moderna tecnologia. Todas em horário integral.


Comentários

Claudia Lobo

Maravilha de artigo, MT! O Cristóvão faz uma análise clara e aponta o que deve ser feito. Ações sem complexidade e que podem transformar a sociedade. Só a Educação pode fazer isso.