E agora?

Mudança, na política, pode e deve ser a evolução na maneira de pensar, de governar, de olhar o País. O novo não é necessariamente sinônimo de bom e muito menos o velho é de superado.

Por Maria Thereza Alencastro Veiga em 10 de Outubro de 2014


As eleições ocorridas domingo passado trouxeram bem mais do que a resposta acerca de quais candidatos disputarão o segundo turno das eleições presidenciais, ou a respeito de governadores, senadores, deputados federais e estaduais eleitos. Estas eleições, ao que me parece, levantaram uma discussão mais madura e mais política, já que voltada também para a ideologia deste ou daquele candidato. Sim, estou ouvindo discussões sobre programas. Ou, como diria Marina Silva, sobre “discussões programáticas”. 

Maravilha! O povo brasileiro precisa entender, urgentemente, que a politização é necessária, na medida em que a compreensão do que é o Estado e de como devem funcionar seus organismos é essencial para que possamos vivenciar uma democracia plena. Ainda vai um longo caminho pela frente mas, ao menos, começou-se a trilhá-lo.

Mas vamos lá.

Em primeiro lugar, quero de novo fazer a defesa dos brasileiros que vivem no Norte e no Nordeste brasileiro, que votaram maciçamente no PT. Faço isto perguntando se eles votaram realmente no partido e em sua ideologia bolivarianista, ou se votaram na certeza da continuidade das políticas sociais que eles pensam que foram implementadas por Lula.

Muita gente tem apontado o dedo acusadoramente para o Norte e Nordeste, se esquecendo que a história do desenvolvimento daquelas regiões está longe, muito distante da história do desenvolvimento do Sul, Sudeste e até mesmo do Centro-Oeste. Não acho justo exigir que pessoas que tem tão pouco do aparato estatal possível à sua disposição, o mesmo discernimento de quem já tem todas estas possibilidades incorporadas à sua vida. Nem sempre é fácil compreender que o Estado não obsequia com favores, mas sim cumpre deveres.

Na verdade a discussão é outra, bem outra e já foi posta, inclusive: uma coisa é administrar a fome, outra é superá-la. De fato, é absolutamente necessário que a miséria que ainda permeia a vida de muitos cidadãos brasileiros seja substituída pela dignidade -- esta sim, garantia constitucional e, portanto, fundamental -- que somente a remuneração vinda do próprio trabalho confere.

Em segundo lugar, ainda estou por compreender o que significa este desejo de “mudança” tão radical e ao mesmo tempo tão contraditório com o resultado das urnas.

No Congresso Nacional, por exemplo, apesar das manifestações de junho de 2013 -- onde o tom foi o do desejo de renovação -- o resultado das urnas revelou que foi dado um passo na direção exatamente oposta: as bancadas do Congresso Nacional ditas reacionárias -- por exemplo aquelas formadas por militares e religiosos -- foram as que se consolidaram como maioria, de acordo com levantamento do DIAP, o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar. Há quem diga, inclusive, que este novo Congresso é o mais reacionário do período pós-1964, ou seja, pós ditadura militar.

Por outro lado, foi mantido, na Câmara dos Deputados, mais ou menos o mesmo número de cadeiras que anteriormente eram ocupadas pelo PT (eram 88, agora são 70), pelo PSDB (eram 44 e agora são 54) e pelo PMDB (eram 71 e agora são 66). Quanto ao Senado, o PMDB passou de 19 para 18 Senadores, o PT de 13 para 12 e o PSDB de 12 pra 10.

Onde ficou, então, o grito pela “renovação”? Onde ficarão, a partir de fevereiro de 2015, as necessárias discussões sobre as causas sociais?

Ou será que os eleitores ainda não sabem o papel da Câmara dos Deputados e do Senado?

Que tipo de “novo” é este?

Mas acho que ainda cabe uma pergunta: é realmente preciso “mudar”?

Institucionalmente, acho qualquer desejo radical neste sentido perigoso: a história não caminha aos saltos. As mudanças, todas e principalmente as políticas, são precedidas pela mudança da compreensão e dos desejos da própria sociedade. Por isto são lentas: a sociedade não muda drasticamente. Então, desrespeitar a história é ser revolucionário, o que é próprio da esquerda radical, que quer mudar tudo hoje, agora, ou da direita reacionária, que quer que o tempo pare e nada se modifique.

Então, mudança sim, mas na medida e no tempo certos. Mudar só por mudar, não.

Por outro lado, claro que não estou falando de mudar, por exemplo, o status quo atual que transformou a corrupção em normalidade. Esta realidade precisa sim ser transformada mas, para tanto, não é preciso uma discussão ideológica mas, sim, o funcionamento em tempo real tanto do aparato policial, quanto do Poder Judiciário.

É preciso analisar, então, qual a mudança que se quer implementar e se há concordância da sociedade com ela.

Neste sentido, quais são as mudanças que os atuais candidatos à Presidência da República preconizam e com quais você concorda? Permanência da idade penal atual? Diminuição? Julgamento caso a caso? Mudanças no sistema de distribuição da Bolsa Família? Reforma política: voto distrital, sistema de lista fechada? Fim do fator previdenciário? Nossa economia suporta esta mudança? Descriminalização da droga? Do aborto?

Por fim, de se ver que a verdadeira mudança não é a entrada de um novo partido político no cenário eleitoral, sequer a simples troca da pessoa do Presidente da República. Mudança, na política, pode e deve ser a evolução na maneira de pensar, de governar, de olhar o País. O novo não é necessariamente sinônimo de bom e muito menos o velho é de superado. O novo pode sim nascer superado e o velho pode sim ser bom, muito bom.

Pensem nisto, atravessem a superfície.

E agora? Agora é esperar para ver o que vai sair de nossas TVs e rádios no horário eleitoral. Se a velha cantilena de acusações e mentiras, ou se de fato o que interessa: propostas.


Comentários

Maria Amélia da Silva Costa Bellodi

Concordo com o novo e o velho,Maria Helena,mas em um paìs tão imenso e em alguns lugares pobres em todos os sentidos,não tendo acesso à toda essa informação e explanação tão bem feita como vc o faz,acho sim que a mudança tem que vir,e o único jeito é a mudança da pessoa que está dirigindo este país e com isto o seu partido.E,a mudança então requer outra pessoa e outro partido visto que,quem está lá jamais irá mudar e afundará o país!!!Seja ele qual for,infelizmente!Não acho que o Aécio vai ser a salvação da Pátria e nem terá tempo hábil,mesmo com a melhor das imtenções.mas só a mudança terá valido a pena!!!Bom fim de domingo⛅️Ah!Não consigo te enviar email no teu particular!!!!!