"O eleitor e a preguiça"

Votar nulo ou em branco não é uma manifestação de desacordo, não é um protesto, pelo menos não é um protesto eficaz. Dessa forma, não muda os rumos do Brasil.

Por Maria Thereza Alencastro Veiga em 24 de Setembro de 2014


Tenho visto, assustada, o percentual de eleitores que pretendem votar em branco ou anular o voto: consta da última pesquisa divulgada, que em ambos os turnos este índice alcançaria, na escolha para a Presidência da República, somadas as opções, 12% dos eleitores.

Anna Vitória Gomes Caiado já escreveu aqui sobre isto mesmo, em 22 de maio de 2014, sob o título “Votos brancos ou nulos interferem nas eleições?”: ela terminou o artigo da seguinte forma:

Votar nulo ou em branco não é uma manifestação de desacordo, não é um protesto, pelo menos não é um protesto eficaz. Dessa forma, não muda os rumos do Brasil. É, na verdade, uma demonstração de passividade, um concordar com a maioria, um "tanto faz". Mas, como o voto é livre, escolha você, agora com consciência, o significado do seu.

Diante, no entanto, deste altíssimo índice de possibilidade de votos brancos e nulos, resolvemos insistir.

Segue, abaixo, dois artigos de Fernando Rodrigues, que é repórter em Brasília e que escreve para a Folha de São Paulo nas quartas e sábados. O articulista já foi editor do jornal de “Economia” (hoje “Mercado”), correspondente em Nova York, Washington e Tóquio. Recebeu quatro Prêmios Esso (1997, 2002, 2003 e 2006).


Quem ganha com o voto nulo


BRASÍLIA – Votar nulo é uma opção defendida por vários grupos de protesto que emergiram desde junho de 2013. Cartazes com a inscrição “não me representa” sintetizam esse desejo difuso de muitos brasileiros.

Durante a ditadura militar, algumas tendências trotskistas recomendavam votar nulo. Rejeitavam as duas únicas legendas legalizadas à época – a Arena (governista) e o MDB (oposição emasculada e consentida).

Quem opta pelo voto nulo certamente dá um recado aos políticos. Mas suspeito que alguns não conheçam o impacto completo desse ato.

Para começar, nem protestar de verdade é mais possível. Na era do papel, muita gente votou o rinoceronte Cacareco, no macaco Tião ou simplesmente escreveu um palavrão.

Agora, com a urna eletrônica, a única saída é digitar um número que não esteja atribuído a nenhum candidato e confirmar o voto – que resulta nulo. Uma ação mais rápida e com efeito idêntico é voto em branco, para o qual há uma tecla específica.

Mas quem se beneficia, de fato, dos votos brancos ou nulos? Simples: os candidatos que estão à frente nas preferências do eleitor e próximos de vencer o primeiro turno.

Para facilitar, considere um eleitorado de 100 milhões. Ganha a Presidência quem tiver, pelo menos, 50 milhões mais um dos votos. Só que, se 20 milhões forem brancos ou nulos, a soma dos votos válidos cai para 80 milhões – e vencerá no primeiro turno o político que receber, pelo menos 40 milhões mais um dos apoios.

Ou seja, quanto mais votos nulos, menos apoios são necessários para alguém vencer no primeiro turno.

Hoje, quem se beneficia do voto nulo é Dilma Rouseff (PT) na corrida presidencial. Em São Paulo, na disputada de governador, ganha Geraldo Alckmin (PSDB). A petista e o tucano lideram as pesquisas eleitorais.

Tudo considerado, ao votar nulo o eleitor pode, de maneira inadvertida, sem querer, eleger um político contra o qual talvez desejasse protestar.

(Artigo de Fernando Rodrigues publicado na Folha de São Paulo em 02/08/2014.)


O eleitor e a preguiça


BRASÍLIA – Há um número não desprezível de eleitores desiludidos e incomodados com a forma de fazer política. Muitos votarão apenas contra alguém, mas não a favor desse ou daquele candidato. Há nesse grupo também os 100% céticos, cidadãos decididos a votar nulo.

Outro dia escrevi sobre o fato de o voto nulo não ser neutro. Quem anula reduz número de votos válidos. Permite que o candidato a governador ou a presidente à frente nas pesquisas vença eventualmente no primeiro turno com menos apoios.

Após detalhar o efeito do voto nulo, recebi na profusão de reclamações. Em síntese, os recados são assim: “Você está dizendo que não posso nem votar nulo? Eu não quero me comprometer com ninguém e desejo protestar contra todos os políticos”.

Tal atitude embute com conceito defeituoso de cidadania. Pressupõe que exercer a democracia consista apenas em sair de casa uma vez a cada dois anos para votar.

Ocorre que o voto é como se fosse um gol, usando o futebol como alegoria. Só marca gols quem treina, aplica-se, desenvolve um estilo e joga de maneira coletiva. Na sociedade, isso requer atuar de forma constante, fiscalizando os eleitos e fazendo cobranças a respeito das promessas apresentadas durante a campanha.

A memória eleitoral do brasileiro não indica tal tipo de comportamento. Em 2010, duas semanas depois de terem escolhido a nova Câmara, 30% dos eleitores já diziam não se lembrar em quem haviam votado para deputado federal.

Essa cidadania preguiçosa é a raiz dos problemas dos quais a maioria reclama. Os mesmos que votam nulo se chateiam ao ficar sabendo de mais um caso de corrupção na política.

Alguns também se irritam quando são indagados sobre como devem se comportam depois das eleições. “Vai dizer agora que tenho de ficar mandando um e-mail para os deputados todas as semanas?” Não é muita coisa, mas já ajudaria um pouco.

(Artigo de Fernando Rodrigues publicado na Folha de São Paulo, em 24/09/2014.)


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