As nossas paixões

O íntimo, a política, o futebol: as nossas paixões têm alta capacidade para nos cegar; seja qual for o alvo, é muito sedutor acreditar piamente em algo que irá nos salvar e completar.

Por Marilia Alencastro Veiga em 19 de Junho de 2014


Nós, seres humanos, temos a extraordinária capacidade de criar. Idealizamos sonhos mirabolantes e, incrivelmente, conseguimos realizar muitos deles. Santos Dumont.

A idealização, porém, tem seu lado sombrio, que é aquele que insiste nas ilusões, em distorções pouco produtivas da realidade possível. No final das contas, a verdade é que nossas paixões têm alta capacidade para nos cegar, seja o alvo uma pessoa, um time de futebol ou um partido político, já que é muito sedutor acreditar piamente em algo que irá nos salvar e completar.

Perseguimos por toda a vida essa sensação de completude – perdida quando, ainda bebês, fomos compelidos a lidar com as frustrações próprias do real. E, sim, esses apaixonamentos cegos, em diferentes situações e com diferentes alvos, têm algo de comum entre si: o modus operandi.

A ideia do que se quer viver em um relacionamento amoroso é criada muito antes do encontro com possíveis parceiros. Apaixonamo-nos, muitas vezes, pela própria sensação de estarmos apaixonados e pelo sonho vendido pelos costumes sociais de viver a plenitude eterna. Prende-nos alguma característica específica da pessoa real e, a partir daí, alçamos voo para o mundo cujo princípio é o prazer. Passamos, então, o resto de nossas vidas atormentando a pessoa amada já que o que procuramos são aquelas características que nunca pertenceram à realidade dos fatos. E é aí que a idealização, que depende do comportamento de outros, se torna completamente frustrante! O melhor então, nas relações amorosas, é não alimentar expectativas.

No Brasil, a construção do mito do bom futebol, pautado também em partes da realidade, tenta suprir, mesmo que momentaneamente, a necessidade intrínseca de prazer idealizado. No patamar dos mitos, a seleção brasileira de futebol representa a pátria, a transcendência de todos nós unidos por uma paixão comum. Esperamos, em 90 minutos, a felicidade plena e vulcânica do gol e amaldiçoamos os pernas-de-pau que, por um acaso, venham a frustrar nossas expectativas. A idealização do time imbatível nos dá golpes de realidade bem dolorosos de tempos em tempos.

Idealizamos demais para fugir da realidade, e toda essa volta do íntimo para o futebol nos serve para vislumbrar também a persistência insana de se acreditar nos partidos políticos existentes hoje no Brasil. Alguns de nós ainda seguem no ritmo de caça ao prazer também nas eleições! O PT é emblemático nesse assunto. A história de luta contra a opressão de classe, desde 1980 configurou-o como mito com arestas rígidas tanto para quem o ama quanto para quem o abomina. Na paixão pelos salvadores da pátria – sejam eles (teoricamente) da direita ou da esquerda – os apaixonados recusam-se avidamente a enxergar a realidade frustrante: da má gestão perpetrada por seus heróis, dos episódios escrachados de corrupção, da possibilidade de um projeto do partido adversário ser interessante. Está aqui uma das idealização mais sombrias, pois os apaixonados não se abalam nem diante de fatos cabais.

E depois que os mitos são formados, o que se enxerga não é mais a pessoa, o time ou o partido real mas, sim, algo que até pode condizer com parte da realidade, mas, em absoluto, não a representa. A paixão – idealização persistente e sem críticas – é, portanto, o modo pelo qual muitos operam na vida pública e privada.

E em tempos em que procurar a única e exclusiva cara metade e ter orgulho de partidos políticos são ações cada vez mais piegas e fora de contexto, resta-nos a avidez por vencer no futebol, que, em 2014, é o que pode nos trazer de forma mais eficiente aquela sensação de completude há muito perdida.


Comentários

Mirian Furtado Magalhães Perillo

Parabéns Marília ! Pelos seus comentários pertinentes, como você consegue concatenar ideias com maestria.

Juliana Perillo M. De Sá

Excelente texto Marilia! Parabéns pela clareza de raciocínio e tradução das palavras. Beijo